Ozempic causa cegueira? O que os órgãos reguladores concluíram
Atualizado: 6 de set.

A manchete circulou muito: "Ozempic pode causar cegueira". Como quase toda manchete sobre medicamento, ela contém um núcleo verdadeiro embrulhado em exagero. Vale entender exatamente o que foi concluído pelas agências reguladoras, porque a diferença entre "efeito muito raro" e "causa cegueira" muda completamente a decisão de quem está em tratamento.
O que sabemos
O evento em questão tem nome e é raro
Trata-se da NAION — neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, uma redução súbita do fluxo sanguíneo para o nervo óptico que provoca perda de visão, geralmente indolor e em um olho só. É uma condição que existe independentemente de qualquer medicamento e cujos fatores de risco conhecidos incluem diabetes, hipertensão, apneia do sono e certas características anatômicas do nervo óptico.
A agência europeia concluiu que é um efeito adverso muito raro
Em junho de 2025, o comitê de farmacovigilância da agência europeia de medicamentos concluiu, após revisão dos dados disponíveis, que a NAION constitui um efeito adverso muito raro dos medicamentos contendo semaglutida, com frequência estimada da ordem de um caso em cada dez mil pessoas-ano de tratamento, e determinou a inclusão dessa informação nas bulas [1]. "Muito raro" é uma categoria regulatória definida, não um adjetivo escolhido para tranquilizar.
Rara não significa irrelevante
A perda visual da NAION costuma ser permanente. Um evento raro com consequência grave e irreversível justifica que se saiba reconhecê-lo — não que se abandone um tratamento eficaz por medo. As duas coisas convivem: o risco absoluto é muito baixo e o sintoma merece atenção imediata se aparecer.
Este é um tema médico, não nutricional
Não há intervenção alimentar que previna ou trate NAION. O que a nutrição faz nesse contexto é atuar sobre fatores de risco vasculares — controle glicêmico, pressão arterial, perfil lipídico — que já fazem parte do cuidado por outras razões.
O que ainda não sabemos
Não está estabelecido o mecanismo pelo qual a semaglutida se associaria à NAION; as hipóteses envolvem variações na perfusão do nervo óptico e mudanças rápidas no controle glicêmico, mas nenhuma foi demonstrada.
Não sabemos se o risco se estende a outros medicamentos da mesma classe ou se é específico da semaglutida — os dados regulatórios se referem a ela.
Não há como identificar previamente quem tem risco aumentado; não existe exame de rastreio validado para essa finalidade.
As estimativas de frequência vêm de estudos observacionais e de notificação espontânea, com as limitações próprias desses desenhos.
Não se sabe se suspender o medicamento após um episódio altera o desfecho visual.
Na prática clínica
Eu não converso sobre isso para assustar, e também não omito. Quando a paciente traz a manchete, eu explico a ordem de grandeza: um caso em cada dez mil pessoas-ano é um número que precisa ser dito em voz alta, porque a percepção construída pela mídia é de algo muito mais frequente.
O que eu efetivamente peço é que ela saiba reconhecer o sinal. Perda súbita de visão em um olho, ou uma área escura fixa no campo visual, é motivo de avaliação oftalmológica de urgência — no mesmo dia, não na próxima consulta de rotina. Esse é o conteúdo prático que importa.
E trabalho o que está no meu escopo: controle glicêmico, pressão e perfil lipídico através da alimentação, porque são fatores de risco vasculares reais e modificáveis. Quando a paciente tem diabetes, hipertensão ou apneia do sono, reforço a importância do acompanhamento oftalmológico regular — que já era indicado antes de qualquer discussão sobre GLP-1.
Decisão sobre manter ou suspender o medicamento não é minha e nem deve ser tomada a partir de um texto na internet. É conversa com quem prescreveu, com os dados da paciente na mesa.
Quando procurar avaliação profissional
Atendimento oftalmológico de urgência, no mesmo dia:
Perda súbita de visão em um olho, total ou parcial.
Área escura, sombra ou "cortina" fixa no campo visual.
Perda de parte do campo de visão, especialmente a metade inferior.
Alteração visual súbita acompanhada de dor de cabeça intensa.
Reavaliação com quem prescreveu, sem urgência:
Visão embaçada que flutua ao longo do dia, especialmente em quem tem diabetes.
Histórico pessoal de NAION em um dos olhos.
Diabetes, hipertensão ou apneia do sono sem acompanhamento oftalmológico em dia.
Dúvida ou insegurança sobre continuar o tratamento por causa dessa informação.
O acompanhamento nutricional não substitui a avaliação oftalmológica, mas ajuda no controle dos fatores de risco vasculares. Agende uma consulta para trabalharmos glicemia, pressão e perfil lipídico junto com o seu tratamento.
Referências científicas
European Medicines Agency, Pharmacovigilance Risk Assessment Committee (PRAC). Semaglutide: NAION classified as a very rare side effect — product information update. June 2025.
Clinical consequences of GLP-1 receptor agonist therapy: safety considerations. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2025;110(1):1.
Mozaffarian D, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory. Obesity. 2025. doi:10.1002/oby.24336
Última revisão deste conteúdo: setembro de 2026. A literatura sobre nutrição e GLP-1 está em expansão rápida; recomendações podem mudar.
Sobre a autora
Juliana Alves é nutricionista clínica especializada em emagrecimento e saúde da mulher (CRN-3 96607). Tem pós-graduação em nutrição estética e em saúde da mulher, especialização em psicopedagogia e neuropsicopedagogia, mestrado em educação e certificação Precision Nutrition Nível 1, além de mais de uma década de experiência clínica e docência universitária. Atende online.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta individual. Nenhuma decisão sobre medicamento, dose ou suspensão deve ser tomada a partir deste texto.



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